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O que é uma Lição ? | Conceitos Fundamentais | Aplicações e Benefícios
Conceitos Fundamentais
Nós humanos temos uma fantástica capacidade de imaginar. Inventamos situações e vivemos momentos que não são aqueles em que estamos mais concreta e correntemente. É uma habilidade incrível que nos permite criar, sonhar e sentir num ambiente imaginado a despeito do que está ao nosso redor. Sob um olhar mais cuidadoso, é difícil traçar uma linha clara entre o que seria o ambiente-situação imaginado e o ambiente-situação que realmente nos rodeia. Talvez seja mesmo impossível fazer uma distinção precisa mas é importante e necessário considerarmos a diferença. Nem tudo que se desdobra desta habilidade é desejável. Dentre algumas das conseqüências que poderíamos considerar prejudiciais está uma forma de distanciamento da situação presente e de si mesmo. Nossa imaginação pode nos distanciar daquilo que é mais substancial em nossas vidas. Este "distanciamento" não é nada misterioso, é algo muito prático e que podemos constatar facilmente, basta notar a quantidade de coisas que fazemos sem perceber. E é interessante perguntar, com que qualidade fazemos aquilo que não percebemos que estamos fazendo? Enquanto estamos com os pés mais sustentados pela imaginação do que pelo próprio chão, as porções consideradas mais "elementares" da vida são realizadas no automático, de modo inconsciente e são tidas como uma grande nebulosa de obviedades. Olhar e atentar para esta nebulosa pode ser revelador e surpreendente, além de trazer ganhos para a saúde e para o agir diário. Eis um poema que retrata um pouco este "distanciamento":
Este poema de Alberto Caeiro descreve um pouco desta condição típica e termina com uma expressão notável: "somos vadios do nosso corpo". Estamos de tal forma alienados do corpo que chegamos a "tratá-lo" (melhor seria dizer "tratar a nós mesmos") como um instrumento, como um objeto dócil. Ao fazê-lo, não percebemos a importância do que estamos deixando de lado e ficamos à mercê da imaginação. Nossa capacidade de "imaginar" comumente nos ilude. Imaginamos coisas distantes e diferentes daquilo que é atual e acreditamos numa grande parcela da nossa imaginação como se fosse realidade sem perceber que é uma situação imaginada. Conclusão, nos furtamos do momento presente e da possibilidade de vivenciá-lo mais plenamente. Quando estamos alienados do corpo ficamos também alienados do presente. Nesta condição o contato com as nossas próprias possibilidades fica turvo e fragmentado. Aceitamos limites muito aquém do nosso potencial e das possibilidades oferecidas pelo ambiente. É comum vivermos situações restritivas pela simples razão de acreditarmos mais no que imaginamos do que naquilo que está diante de nós. Seria possível viver de outra forma? É possível estar num momento e perceber-se presente onde se está? Várias práticas dizem que sim, como a Educação Somática e as Artes Marciais, entre outras. Uma das maneiras de caminhar nesta direção é atentar para os próprios movimentos. A atenção direcionada ao corpo em movimento pode funcionar como uma âncora para chegarmos ao instante atual e dai vem o conceito de "incorporar":
Cada um de nós se coloca no mundo, está e age, de acordo com a imagem que tem de si mesmo. Ela funciona como uma espécie de pano de fundo para tudo que fazemos e está diretamente relacionada com o nosso sentimento de possibilidades. Traduz para nós mesmos como percebemos nosso potencial num determinado instante. Até aí nenhuma grande novidade. A descoberta começa quando se compreende que nossa auto-imagem é em grande medida uma “imagem corporal”. Para Feldenkrais estes sentimentos relativos a nós mesmos estão arraigados nos estados do nosso organismo e refletem nossos padrões posturais (em outras palavras, nosso tônus muscular em nossa relação com o campo gravitacional). Em seu livro "Consciência pelo movimento", Feldenkrais indica que nossa auto-imagem é condicionada tanto pela nossa constituição hereditária como pela socialização.
É ao longo do nosso desenvolvimento que formamos nossos padrões pessoais de movimento e a auto-imagem a eles correspondente. Pouco a pouco adquirimos nosso jeito próprio de estar no mundo e interagir com ele, nossa maneira de andar, sentar, cruzar as pernas, olhar, falar, rir, comer, vestir, prestar atenção, etc. Nossos hábitos estruturam-se, acumulam-se. Formam um repertório pessoal intensamente modelado pela sociedade. Organizados como que em camadas de determinação passam a atuar de maneira tácita. Eles refletem nosso modo adaptado de ser e não os nossos potenciais. Já adultos, percebemos nossos padrões como algo óbvio e inevitável, ou melhor, praticamente não os percebemos. Eles podem ser vistos como regras às quais nos submetemos sem questionar (não se pode questionar aquilo que não se percebe). O nosso “jeitão” é como uma “ideologia pessoal”, não sabemos de onde vem nem porque está aí. Cada ação trás em surdina toda esta construção, todo o passado e o processo de desenvolvimento. Este conteúdo em “surdina” é o âmbito da auto-imagem e, apesar de influenciar decisivamente grande parcela do que acontece em nossas vidas, é quase que inacessível à percepção consciente no dia-a-dia. Auto-educação e Flexibilização As lições de Educação Somática não oferecem modelos a serem seguidos. Elas são um meio para a identificação de padrões e para o descobrimento de possibilidades, uma maneira de flexibilizar a organização pessoal e possibilitando um viver mais ativo. O resultado depende inteiramente da iniciativa de quem as pratica. Feldenkrais chamou este processo de auto-educação. A auto-educação é, segundo ele, o terceiro fator que condiciona a auto-imagem.
O método elaborado por Feldenkrais fortalece o processo natural de auto-educação e convida a pessoa a explorar seus modos de estar e agir, e a experimentar possibilidades pessoais desconhecidas ou subutilizadas. A via utilizada para proporcionar este aprendizado é o movimento. O conceito de Potencial Postural traz a idéia de que temos uma capacidade de colocarmo-nos no mundo de diferentes maneiras e em diferentes intensidades. O modo como utilizamos esta capacidade depende das experiências pessoais e do aprendizado social. Este potencial pode ser melhor conhecido e aproveitado através da flexibilização e da conscientização dos processos posturais. Remete também à possibilidade de "incorporar" e perceber-se presente. O aproveitamento do Potencial Postural está relacionado ao viver de modo "mais ativo". Este maior grau de atividade não deve ser confundido com o ativismo, não diz respeito à quantidade de atividades mas à intencionalidade e propósito de cada uma. Supõe o aumento da capacidade de escolha, o que envolve a capacidade de multiplicar as possibilidades pessoais, e, principalmente, o conhecimento daquilo que se está fazendo e daquilo que se deseja fazer. Estas palavras são mais facilmente enunciadas do que vividas e é aqui que podemos fazer uso da descoberta da dimensão corporal da auto-imagem e dos hábitos pessoais. A postura e os movimentos são a parte mais concreta das nossas ações e podem ser mais diretamente acessadas. Como cada um de nós é um todo indivisível, trabalhar os hábitos (às vezes considerados "puramente" corporais) através dos movimentos é uma maneira de trabalhar a pessoa como um todo. Sabemos pela prática que trabalhar o Potencial Postural aguça nossas percepções e amplia nosso sentimento do possível. Este é o tema central que sustenta os trabalhos realizados pelo Incorporando Educação Somática. Encerrando esta breve exposição dos conceitos fundamentais para a compreensão do que é o Potencial Postural e o processo de educação somática, destacaremos que a direção apontada por Moshe Feldenkrais para o desenvolvimento humano através do seu método é a conquista da postura ideal. Para ele, levando-se em consideração o movimento, a postura ideal seria a prontidão para mover-se na direção desejada sem nenhuma preparação prévia Considerando-se a pessoa em sua relação com o mundo, a "postura ideal" equipara-se ao seu conceito de saúde: a condição de viver na direção dos sonhos mais secretos, aqueles que não foram reconhecidos nem para si próprio.
O que é uma lição?Um espaço para aprender e expandir-se
As lições criadas por Moshe Feldenkrais, chamadas de "Consciência pelo Movimento", baseiam-se no movimento mas visam trabalhar a auto-imagem e a capacidade de escolha. Cada lição é uma seqüência de movimentos que pode ser entendida como um processo de desconstrução e reconstrução de padrões de movimento e percepção. Em sua maioria, as seqüências são suaves e levam o aluno a construir referenciais próprios de ritmo, força e amplitude, sempre com o parâmetro constante do conforto. Busca-se interferir experimentalmente nos padrões habituais e ampliar a consciência-perceptiva. O tônus muscular, a relação com a gravidade e a percepção ativa desta relação são a matéria prima utilizada neste método. É possível mobilizar a pessoa como um todo quando se trabalha com o fascinante jogo das forças envolvidas nesta dimensão do comportamento. É aí que operam nossos hábitos mais primitivos de postura, movimento e sentimento. Esta é uma visão relativamente nova e um tanto estranha para nossa cultura ocidental, acostumada a uma visão fragmentada do ser humano. Para muitos este percurso que parte do movimento para atingir a auto-imagem é pouco evidente ou parece até improvável. Mas atualmente já existem alguns médicos, psicólogos e filósofos que se referem a esta possibilidade. ... meu corpo, que havia pouco era o veículo do movimento, torna-se sua meta; (...) considero curiosamente essa estranha máquina de significar e a faço funcionar por diversão. O movimento abstrato cava, no interior do mundo pleno no qual se desenrolava o movimento concreto, uma zona de reflexão e de subjetividade, ele sobrepõe ao espaço físico um espaço virtual ou humano. – Merleau-Ponty in Fenomenologia da Percepção
Aplicações e BenefíciosA prática freqüente das lições promove um maior aproveitamento do Potencial Postural. Através do refinamento dos movimentos e da percepção diversos benefícios são alcançados. Todas as atividades humanas podem se beneficiar pelo aprimoramento dos movimentos e da postura que os sustenta, desde as ações mais corriqueiras e fundamentais como respirar, levantar, andar, sentar, dormir, escrever e digitar, até as habilidades mais requintadas e tão necessárias para as artes performáticas como teatro, dança, canto e música. Melhor Postura: vários problemas de postura podem ser minimizados e até eliminados. É comum o desaparecimento de dores na coluna, pescoço e ombros, causadas por um mau hábito postural. Aprender a utilizar o esqueleto para sustentar o peso do corpo (neutralizando assim a pressão exercida pela gravidade) alivia a musculatura de tensões desnecessárias, proporciona uma sensação de leveza e confere maior liberdade aos movimentos. Melhor qualidade de Movimento: com a postura aprimorada e com o tonos muscular mais igualmente distribuído pelo corpo, os movimentos podem ser feitos com menor esforço e maior qualidade. Melhor Respiração: uma respiração plena – contínua, profunda e sem esforço – favorece o metabolismo e gera benefícios psicológicos e para a saúde como um todo. A respiração também está diretamente relacionada à qualidade dos movimentos e podemos dizer que são mutuamente causativos. Ampliação da Atenção: apoiados nas conquistas mencionadas acima e na prática de um foco de atenção diferente do habitual, os sentidos e a atenção são aguçados. Novos elementos podem ser percebidos e uma nova curiosidade emerge tanto em relação às coisas como a si mesmo. Aperfeiçoamento da Auto-imagem: à medida que todo este aprimoramento é desenvolvido passamos a nos perceber de maneira mais coerente com nossos próprios potenciais. Desenvolvemos novas referências e passamos a ter uma contato mais direto com nossas tendências e capacidades. Presentificação: capacidade de sentir-se presente. Este é um dos potenciais humanos muito pouco aproveitados ultimamente. Diversas vantagens psicológicas decorrem desta capacidade, entre elas a diminuição da ansiedade e do stress, e também a possibilidade de maior qualidade na interação com as pessoas. Leia mais... Referência própria (autenticidade): explorar as próprias possibilidades sem a necessidade de atingir um objetivo pré-estabelecido nem de fazer o que é correto e esperado, abre caminho para a espontaneidade e autenticidade. As características pessoais podem ser vivenciadas e favorecidas. É comum observarmos um despertar dos gostos pessoais.
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